:: Cuidados especiais
Ele imitou o Cícero e disse que me empresta sua alegria...
Quarta-feira, Janeiro 25
Terça-feira, Janeiro 24
Quarta-feira, Janeiro 18
Terça-feira, Dezembro 27
:: Seres sensíveis
Heloísa Bacellar tem um texto de que amo, amo. Ela é capaz de mostrar, pelas palavras, como é sensível e apaixonada pela cozinha e seus ingredientes e seus apetrechos e seus cacarecos adoráveis. Tem um trecho de “Chocolate Todo Dia", que anotei lá atrás, quando li pela primeira vez.
“Tudo começou num dia em que eu estava muito triste, sentindo que precisava adoçar a vida de algum jeito. Fui até a cozinha, abri a gaveta de guloseimas e quebrei um tablete de chocolate. Fechei os olhos, coloquei um pedacinho na boca e senti o chocolate se desmanchar, se transformar em algo quente, cremoso, aveludado, delicioso, doce e amargo ao mesmo tempo e terminar deixando uma sensação de conforto, carinho e me dando um pouco de coragem e energia.”
Heloísa Bacellar tem um texto de que amo, amo. Ela é capaz de mostrar, pelas palavras, como é sensível e apaixonada pela cozinha e seus ingredientes e seus apetrechos e seus cacarecos adoráveis. Tem um trecho de “Chocolate Todo Dia", que anotei lá atrás, quando li pela primeira vez.
“Tudo começou num dia em que eu estava muito triste, sentindo que precisava adoçar a vida de algum jeito. Fui até a cozinha, abri a gaveta de guloseimas e quebrei um tablete de chocolate. Fechei os olhos, coloquei um pedacinho na boca e senti o chocolate se desmanchar, se transformar em algo quente, cremoso, aveludado, delicioso, doce e amargo ao mesmo tempo e terminar deixando uma sensação de conforto, carinho e me dando um pouco de coragem e energia.”
Domingo, Dezembro 25
Sábado, Dezembro 24
:: Comida da alma
Há pouco, fechei uma coluna da Nina, a-escritora-que-quero-ser-quando-eu-crescer-e-ler-montes-e-ficar-entendida-dos-assuntos-e-do-inglês-e-do-francês-e-das-emoções-todas, que acabava com uma frase que me pareceu muito, muito minha. "Comida faz a alma cantar", diz. Aprendi isso desde criança.
Vovó fazia os barquinhos de pão francês com manteiga para nadar sobre o café com leite que só ela sabia preparar. A bizinha, que eu escrevo com "z", velhinha de tudo, cabelo branco, ralo, meio corcundinha e com os esmaltes laranja ou rosa, sempre fosforescentes, nas unhas enormes, tinha 13 bisnetos. Mas havia uma preferência descarada por mim e pela Li. E então ela guardava na gaveta do quarto, na especialíssima cômoda das calcinhas, bananas e barras de chocolate, daquelas cobertas com papel-alumínio, que escondia ali um animal em relevo, que brincávamos, à exaustão, de descobrir qual era. Tudo isso para que ficassem garantidos nossos chocolates e nossas bananas sempre, sem risco de falhas.
E tem minha outra avó também, mãe do meu pai, que brincava muito de cabeleireiro comigo --e eu abusava da boa vontade dela e fazia barbaridades com aquele cabelo-- e preparava, com as próprias mãos, aquelas mesmas mãos que tocam Bach ao piano até hoje, um nhoque de batata com muita batata, que merecia o respeito de uma criança cheia de frescuras, lá naqueles tempos. Desde aqueles tempo, digo.
Mamãe não ia muito para a cozinha. Não por desgosto, mas por falta de tempo. Já naquele começo dos anos 80, tinha de cuidar de duas filhas --o que fez à perfeição-- e trabalhar, trabalhar. Mas ela deixava eu fazer porquices na mesa, molhar o quibe no creme de abacate e coisas assim. Quando eu era pequena, tinha disso: eu via macacos motorizados em carrinhos vermelhos e mergulhava o quibe no creme de abacate.
Tinha a coisa do meu pai também. Meus pais se separaram quando eu tinha três anos, a Li, quatro. Ficávamos ao menos duas vezes por semana com ele --e ele foi morar numa quitinete na praça Roosevelt, em que fazíamos festa de dormir no sleeping e alimentar aquelas pombas (de que hoje tenho pavor, pavor!) que se aboletavam ali no vaso daquela varandinha minúscula --e tão feliz.
Então voltávamos da escola no fusca amarelo, parávamos ali entre os puteiros e íamos caminhando, encantadas com os luminosos daqui e dali, até o prédio. E na hora do banho, papai nos levava cenoura e tomatinho com sal. E era um desfrute memorável. Até hoje tenho essa coisa das cenourinhas cortadas em palitos e dos tomatinhos-cereja, de um bom vermelho. Até hoje tem essa coisa do vermelho dos tomates frescos que me prendem a atenção. De ficar ali, olhando, olhando.
Pois bem, tinha a coisa do papai. Ele precisa nos entreter e cozinhar ao mesmo tempo. Me contou isso, em detalhes, faz pouco. Esse quebra-cabeça que era ter de usar o nosso tempo juntos, precioso de tudo, para cozinhar e, ao mesmo tempo, estar com a gente. Entregue, até a alma. E então ele inventava receitas e íamos interagindo, interagindo.
Até que inventou a coisa de colocar máscara de mergulho para cortar as cebolas --até parece, ele nem chora com as cebolas como eu, que sempre vou picar cebola quando estou engasgada. E ríamos, ríamos. E depois sentávamos ali nas banquetas que rodeavam aquela bancada de fórmica branca, de pés balançando no ar, e jantávamos juntos, a conversar.
Eu estava aprendendo algo óbvio: o que são as comidinhas da alma. Até hoje repetimos isso, em família --e "comida da alma" é um jeito muito verdadeiro e puro de descrever alguns pratos. E nos entendemos muito bem quando aparecem esses sabores feitos para a alma.
A Bé que ensinou montes disso, também. Porque ela sempre teve essa sensibilidade de cuidar do outro, de aconchegar, de acarinhar. E, no fogão, transforma tudo nos mais deliciosos sabores. Os sabores da alma. Me ensinou também que existe mesa posta para acalmar a alma, por exemplo. Me ensinou a preparar minivasos de flor e pensar na toalha e pensar na louça e pensar em como deixar o outro feliz só com a disposição das coisas sobre a mesa.
Mais tarde, Lili começou a cozinhar maravilhosamente bem. Ela e o Caco, um casal cozinhante, de que amo. E eles já cuidaram das minhas tristezas e das minhas dores de amores com as receitas mais acolhedoras imagináveis. Um macarrãozinho com queijo feito no forno, um ovo mexido com tomate e cebola, um doce de banana qualquer. Qualquer.
E hoje a Nina me ensinou que eu posso traduzir tudo isso nessa frase, que me pareceu tão minha. "A comida faz a alma cantar."
Há pouco, fechei uma coluna da Nina, a-escritora-que-quero-ser-quando-eu-crescer-e-ler-montes-e-ficar-entendida-dos-assuntos-e-do-inglês-e-do-francês-e-das-emoções-todas, que acabava com uma frase que me pareceu muito, muito minha. "Comida faz a alma cantar", diz. Aprendi isso desde criança.
Vovó fazia os barquinhos de pão francês com manteiga para nadar sobre o café com leite que só ela sabia preparar. A bizinha, que eu escrevo com "z", velhinha de tudo, cabelo branco, ralo, meio corcundinha e com os esmaltes laranja ou rosa, sempre fosforescentes, nas unhas enormes, tinha 13 bisnetos. Mas havia uma preferência descarada por mim e pela Li. E então ela guardava na gaveta do quarto, na especialíssima cômoda das calcinhas, bananas e barras de chocolate, daquelas cobertas com papel-alumínio, que escondia ali um animal em relevo, que brincávamos, à exaustão, de descobrir qual era. Tudo isso para que ficassem garantidos nossos chocolates e nossas bananas sempre, sem risco de falhas.
E tem minha outra avó também, mãe do meu pai, que brincava muito de cabeleireiro comigo --e eu abusava da boa vontade dela e fazia barbaridades com aquele cabelo-- e preparava, com as próprias mãos, aquelas mesmas mãos que tocam Bach ao piano até hoje, um nhoque de batata com muita batata, que merecia o respeito de uma criança cheia de frescuras, lá naqueles tempos. Desde aqueles tempo, digo.
Mamãe não ia muito para a cozinha. Não por desgosto, mas por falta de tempo. Já naquele começo dos anos 80, tinha de cuidar de duas filhas --o que fez à perfeição-- e trabalhar, trabalhar. Mas ela deixava eu fazer porquices na mesa, molhar o quibe no creme de abacate e coisas assim. Quando eu era pequena, tinha disso: eu via macacos motorizados em carrinhos vermelhos e mergulhava o quibe no creme de abacate.
Tinha a coisa do meu pai também. Meus pais se separaram quando eu tinha três anos, a Li, quatro. Ficávamos ao menos duas vezes por semana com ele --e ele foi morar numa quitinete na praça Roosevelt, em que fazíamos festa de dormir no sleeping e alimentar aquelas pombas (de que hoje tenho pavor, pavor!) que se aboletavam ali no vaso daquela varandinha minúscula --e tão feliz.
Então voltávamos da escola no fusca amarelo, parávamos ali entre os puteiros e íamos caminhando, encantadas com os luminosos daqui e dali, até o prédio. E na hora do banho, papai nos levava cenoura e tomatinho com sal. E era um desfrute memorável. Até hoje tenho essa coisa das cenourinhas cortadas em palitos e dos tomatinhos-cereja, de um bom vermelho. Até hoje tem essa coisa do vermelho dos tomates frescos que me prendem a atenção. De ficar ali, olhando, olhando.
Pois bem, tinha a coisa do papai. Ele precisa nos entreter e cozinhar ao mesmo tempo. Me contou isso, em detalhes, faz pouco. Esse quebra-cabeça que era ter de usar o nosso tempo juntos, precioso de tudo, para cozinhar e, ao mesmo tempo, estar com a gente. Entregue, até a alma. E então ele inventava receitas e íamos interagindo, interagindo.
Até que inventou a coisa de colocar máscara de mergulho para cortar as cebolas --até parece, ele nem chora com as cebolas como eu, que sempre vou picar cebola quando estou engasgada. E ríamos, ríamos. E depois sentávamos ali nas banquetas que rodeavam aquela bancada de fórmica branca, de pés balançando no ar, e jantávamos juntos, a conversar.
Eu estava aprendendo algo óbvio: o que são as comidinhas da alma. Até hoje repetimos isso, em família --e "comida da alma" é um jeito muito verdadeiro e puro de descrever alguns pratos. E nos entendemos muito bem quando aparecem esses sabores feitos para a alma.
A Bé que ensinou montes disso, também. Porque ela sempre teve essa sensibilidade de cuidar do outro, de aconchegar, de acarinhar. E, no fogão, transforma tudo nos mais deliciosos sabores. Os sabores da alma. Me ensinou também que existe mesa posta para acalmar a alma, por exemplo. Me ensinou a preparar minivasos de flor e pensar na toalha e pensar na louça e pensar em como deixar o outro feliz só com a disposição das coisas sobre a mesa.
Mais tarde, Lili começou a cozinhar maravilhosamente bem. Ela e o Caco, um casal cozinhante, de que amo. E eles já cuidaram das minhas tristezas e das minhas dores de amores com as receitas mais acolhedoras imagináveis. Um macarrãozinho com queijo feito no forno, um ovo mexido com tomate e cebola, um doce de banana qualquer. Qualquer.
E hoje a Nina me ensinou que eu posso traduzir tudo isso nessa frase, que me pareceu tão minha. "A comida faz a alma cantar."
:: Juras de amor e as pequenas alegrias
Ele: o que você adoraria ganhar, hipoteticamente, sem limites?
Eu: me conte de você.
Ele: eu gostaria de visitar a lua com você.
Eu: visitar a lua comigo? parece jura de amor.
Ele: por que não seria? jura de amor é trazer a lua de presente.
Eu: discordo, acho. ir até a lua comigo é mais, é como se a gente se bastasse.
Ele: o que você adoraria ganhar, hipoteticamente, sem limites?
Eu: me conte de você.
Ele: eu gostaria de visitar a lua com você.
Eu: visitar a lua comigo? parece jura de amor.
Ele: por que não seria? jura de amor é trazer a lua de presente.
Eu: discordo, acho. ir até a lua comigo é mais, é como se a gente se bastasse.
Segunda-feira, Dezembro 19
:: Etapas
Recebi hoje, por e-mail, de uma amiga nova. Alegria dupla: por estar copiada entre aquelas pessoas de que ela gosta e por ter o privilégio de ler algo tão lindo no meio desta tarde de sol.
A Carlos Drummond de Andrade (
João Cabral de Melo Neto)
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
Recebi hoje, por e-mail, de uma amiga nova. Alegria dupla: por estar copiada entre aquelas pessoas de que ela gosta e por ter o privilégio de ler algo tão lindo no meio desta tarde de sol.
A Carlos Drummond de Andrade (
João Cabral de Melo Neto)
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
Quinta-feira, Dezembro 1
:: Coisas para repetir
Tenho uma lista de coisas para repetir. Porque eu adoro listas. Porque há de guardar as coisas que devem ser repetidas. Tem uma que já virou religião: todo fim de ano gravo discos felizes para os momentos mais estressantes no trânsito louco do fim de ano não serem traumáticos. E funciona. Porque a música tem esse poder de me colocar numa bolha e mostrar que, calma, tá tudo bem. Neste ano, o disco está engraçado. Tem latinos, tem fados, tem Roberto Carlos, tem Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho, tem o Caetano de sempre. Nada a ver com nada e uma alegria que une todas ali. Eita!
Tenho uma lista de coisas para repetir. Porque eu adoro listas. Porque há de guardar as coisas que devem ser repetidas. Tem uma que já virou religião: todo fim de ano gravo discos felizes para os momentos mais estressantes no trânsito louco do fim de ano não serem traumáticos. E funciona. Porque a música tem esse poder de me colocar numa bolha e mostrar que, calma, tá tudo bem. Neste ano, o disco está engraçado. Tem latinos, tem fados, tem Roberto Carlos, tem Renato Teixeira e Pena Branca & Xavantinho, tem o Caetano de sempre. Nada a ver com nada e uma alegria que une todas ali. Eita!
Quarta-feira, Novembro 30
:: Encontros
Faz um tempo já que acabei de ler "Noites Brancas", do Dostoiévski. E tenho aquele costumeiro vazio, ao acabar um livro de que gosto muito. Quanto mais leio esse russo, mais fico admirada. Esse foi um dos meus prediletos. E grifei, gridei, grifei. Algo que me soou um pouco com o antes e o depois do por-do-sol, do amanhecer, sabe-se lá os nomes exatos dessa dupla de filmes que me diz tanto sobre encontros. Essa coisa preciosa do encontro entre duas pessoas.
"Escute, por que parece sempre que até o melhor dos homens esconde algo do outro e se cala diante dele? Por que não dizer logo, diretamente, o que está no coração, se sabemos que não serão palavras ao vento? Mas todos aparentam ser mais duros do que realmente são, é como se todos temessem ofender seus sentimentos ao expressá-los muito depressa."
Faz um tempo já que acabei de ler "Noites Brancas", do Dostoiévski. E tenho aquele costumeiro vazio, ao acabar um livro de que gosto muito. Quanto mais leio esse russo, mais fico admirada. Esse foi um dos meus prediletos. E grifei, gridei, grifei. Algo que me soou um pouco com o antes e o depois do por-do-sol, do amanhecer, sabe-se lá os nomes exatos dessa dupla de filmes que me diz tanto sobre encontros. Essa coisa preciosa do encontro entre duas pessoas.
"Escute, por que parece sempre que até o melhor dos homens esconde algo do outro e se cala diante dele? Por que não dizer logo, diretamente, o que está no coração, se sabemos que não serão palavras ao vento? Mas todos aparentam ser mais duros do que realmente são, é como se todos temessem ofender seus sentimentos ao expressá-los muito depressa."
Sábado, Novembro 26
Terça-feira, Novembro 22
:: Registros inúteis
Eu amo, amo essa menina. E tenho vontade de registrar todos os diálogos que tenho com ela pra reler e rir mais e mais. Hoje:
- eu comecei a tomar herbalife hj. que cafona, nem espalha!
- rararara, mas você está linda. o auge da beleza.
- eu tô pq eu tô amando apaixonada né. niqui passa a paixão fica os bagulho. aí eu tô 10kg acima do meu peso (segundo meu amigo vendedor da herbalife)
Eu amo, amo essa menina. E tenho vontade de registrar todos os diálogos que tenho com ela pra reler e rir mais e mais. Hoje:
- eu comecei a tomar herbalife hj. que cafona, nem espalha!
- rararara, mas você está linda. o auge da beleza.
- eu tô pq eu tô amando apaixonada né. niqui passa a paixão fica os bagulho. aí eu tô 10kg acima do meu peso (segundo meu amigo vendedor da herbalife)
Domingo, Novembro 20
:: Diálogos inúteis
- Plantão?
- Isso!
- Eu também. E estou com fome, pulei o café da manhã.
- Idem. Tive que escolher entre banho e café e o banho ganhou só porque estou lendo um livro que diz que o banho precisa ganhar.
- ARARARARA! Que livro?
- A Parisiense - O guia de estilo de Ines de La Fressange. Foi a primeira modelo exclusiva da Chanel.
- Conta a parte do banho.
- É isso, ela diz que tem que tomar banho todo dia e lavar o cabelo todo dia, sem negociação. Deve ser uma dica importante na França. Até no Brasil tem sido.
- Plantão?
- Isso!
- Eu também. E estou com fome, pulei o café da manhã.
- Idem. Tive que escolher entre banho e café e o banho ganhou só porque estou lendo um livro que diz que o banho precisa ganhar.
- ARARARARA! Que livro?
- A Parisiense - O guia de estilo de Ines de La Fressange. Foi a primeira modelo exclusiva da Chanel.
- Conta a parte do banho.
- É isso, ela diz que tem que tomar banho todo dia e lavar o cabelo todo dia, sem negociação. Deve ser uma dica importante na França. Até no Brasil tem sido.
:: A chave amarela
É um almoço para poucas pessoas. Ele vai deixar São Paulo e um pouco de cada um de nós. E tem aquele Drummond de que amo desde sempre, e logo me veio à cabeça, "O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas". Não hei de me afastar dele. E, sabe, mesmo não estando muito inspirada hoje para lhe escrever longamente, tem uma história que sou capaz de recuperar. A história que nós mesmos batizamos de "chave amarela". Há uns tantos anos, quando assisti "My Blueberry Nights", passei a entender o que diabos eu tinha com as chaves. Essa adoração, como se eu fosse abrir alguma coisa secreta, secreta e encontrar um mundo mais seguro e feliz, de repente. Do filme, pouca coisa me despertou. Tem Jude Law, tem a trilha sonora, linda, linda (exceto a Joss Stone, que me cansa deveras) e tem o lance das chaves. Bem no comecinho, no bar (ou no restaurante, não me lembro mais), ele mostra aquele vidro cheio delas, as esquecidas, as deixadas. Me fogem os detalhes. E foi ali, naquele momento, que me fez sentido o chaveiro da vaca Geralda (um chaveiro que carreguei pra cá e pra lá por anos, anos) carregado de chaves que não fazem mais sentido. Eu era a única neta com as chaves da casa de vovô e vovó. E vovô me fez um jogo colorido --e eu nunca havia visto chaves coloridas-- para que ficasse claro, só num decorar de cores, qual era a do primeiro portão, a da porta dos fundos e a da porta principal. E eu andava com aquele molho de chaves no maior orgulho de ser a única, a única neta, de 13, a ter as chaves da casa de vovô e vovó. Mas depois vovó morreu. E passado mais um tempo, um ano, dois, três, vovô morreu, sereno. A casa ficou à venda, depois de muito demorar, pois foi preciso nos desfazer de montes de coisas --vovô era colecionador obstinado, eram livros, discos, obras de arte, quadros. Uma beleza de casa. E fizemos aquela coisa triste, triste de abrir a casa a desconhecidos, depois de pinçarmos, em família, tudo o que iríamos manter entre os Santos Vieira. Mesmo passado tudo isso de tristeza e vazio e certa solidão --eram únicos, únicos, vovó fazia barquinhos de pão francês para nadar no café com leite (e foi, até hoje, a única pessoa capaz de fazer meu café com leite à perfeição), vovô passava horas a nos falar sobre livros e discos--, mantive as chaves daquelas mesmas portas, que sabe-se lá onde estão agora, no meu chaveiro da vaca Geralda. E aí que esse moço, sobre o qual falei ali no início, que vai deixar São Paulo e um pouco de todos nós, um dia me fez a cópia da chave da casa dele, amarela, pois ia viajar e me deixou de babá das gatas. Ele sabe, são gatas amáveis (e eu amo gatos). Ele sabe. E então, quando voltou de viagem, combinamos de manter a chave comigo. A chave daquela porta, daquele pequeno e aconchegante e adorável apartamento de janelas largas e badulaques nas paredes. E assim foi. Meu chaveiro, do gato do British Museum, pois aposentei a vaca Geralda, já caduca, passou a ter a chave amarela que dava passagem para aquele cantinho aprazível. Passou mais um tempo. Um longo tempo, aliás. E, certo dia, meu telefone tocou. Era ele, numa sexta à noite, angustiado, preso para fora de casa. Havia perdido sua chave. Eu estava na casinha a esperar uma visita muito especial. Já tinha tratado de espalhar vasinhos de flor aqui e ali, tocava um disco da Nina de que amo, e quem apareceu foi ele, esbaforido. Ainda não conhecia a casinha e, de certa forma, fiquei meio assim de recebê-lo tão depressa, por conta de uma emergência. Mas entreguei a chave a ele, apresentei o Moacir, e ele se foi, pronto, prontinho para abrir a porta de sua casa. Demorou uma semana e pouco, acho, mas me devolveu a chave amarela. Agora está de partida. Fará esse pequeno almoço em sua casa, num convite que pedia discrição, "porque o apartamento é pequeno, as cadeiras são poucas e o fogão, de quatro bocas, é da marca Daco". Combinamos que a chave permanece no meu chaveiro do gato azul, e a gente pode brincar de abrir nossos segredos, mesmo com essa distância física que vai se colocar entre nós.
É um almoço para poucas pessoas. Ele vai deixar São Paulo e um pouco de cada um de nós. E tem aquele Drummond de que amo desde sempre, e logo me veio à cabeça, "O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas". Não hei de me afastar dele. E, sabe, mesmo não estando muito inspirada hoje para lhe escrever longamente, tem uma história que sou capaz de recuperar. A história que nós mesmos batizamos de "chave amarela". Há uns tantos anos, quando assisti "My Blueberry Nights", passei a entender o que diabos eu tinha com as chaves. Essa adoração, como se eu fosse abrir alguma coisa secreta, secreta e encontrar um mundo mais seguro e feliz, de repente. Do filme, pouca coisa me despertou. Tem Jude Law, tem a trilha sonora, linda, linda (exceto a Joss Stone, que me cansa deveras) e tem o lance das chaves. Bem no comecinho, no bar (ou no restaurante, não me lembro mais), ele mostra aquele vidro cheio delas, as esquecidas, as deixadas. Me fogem os detalhes. E foi ali, naquele momento, que me fez sentido o chaveiro da vaca Geralda (um chaveiro que carreguei pra cá e pra lá por anos, anos) carregado de chaves que não fazem mais sentido. Eu era a única neta com as chaves da casa de vovô e vovó. E vovô me fez um jogo colorido --e eu nunca havia visto chaves coloridas-- para que ficasse claro, só num decorar de cores, qual era a do primeiro portão, a da porta dos fundos e a da porta principal. E eu andava com aquele molho de chaves no maior orgulho de ser a única, a única neta, de 13, a ter as chaves da casa de vovô e vovó. Mas depois vovó morreu. E passado mais um tempo, um ano, dois, três, vovô morreu, sereno. A casa ficou à venda, depois de muito demorar, pois foi preciso nos desfazer de montes de coisas --vovô era colecionador obstinado, eram livros, discos, obras de arte, quadros. Uma beleza de casa. E fizemos aquela coisa triste, triste de abrir a casa a desconhecidos, depois de pinçarmos, em família, tudo o que iríamos manter entre os Santos Vieira. Mesmo passado tudo isso de tristeza e vazio e certa solidão --eram únicos, únicos, vovó fazia barquinhos de pão francês para nadar no café com leite (e foi, até hoje, a única pessoa capaz de fazer meu café com leite à perfeição), vovô passava horas a nos falar sobre livros e discos--, mantive as chaves daquelas mesmas portas, que sabe-se lá onde estão agora, no meu chaveiro da vaca Geralda. E aí que esse moço, sobre o qual falei ali no início, que vai deixar São Paulo e um pouco de todos nós, um dia me fez a cópia da chave da casa dele, amarela, pois ia viajar e me deixou de babá das gatas. Ele sabe, são gatas amáveis (e eu amo gatos). Ele sabe. E então, quando voltou de viagem, combinamos de manter a chave comigo. A chave daquela porta, daquele pequeno e aconchegante e adorável apartamento de janelas largas e badulaques nas paredes. E assim foi. Meu chaveiro, do gato do British Museum, pois aposentei a vaca Geralda, já caduca, passou a ter a chave amarela que dava passagem para aquele cantinho aprazível. Passou mais um tempo. Um longo tempo, aliás. E, certo dia, meu telefone tocou. Era ele, numa sexta à noite, angustiado, preso para fora de casa. Havia perdido sua chave. Eu estava na casinha a esperar uma visita muito especial. Já tinha tratado de espalhar vasinhos de flor aqui e ali, tocava um disco da Nina de que amo, e quem apareceu foi ele, esbaforido. Ainda não conhecia a casinha e, de certa forma, fiquei meio assim de recebê-lo tão depressa, por conta de uma emergência. Mas entreguei a chave a ele, apresentei o Moacir, e ele se foi, pronto, prontinho para abrir a porta de sua casa. Demorou uma semana e pouco, acho, mas me devolveu a chave amarela. Agora está de partida. Fará esse pequeno almoço em sua casa, num convite que pedia discrição, "porque o apartamento é pequeno, as cadeiras são poucas e o fogão, de quatro bocas, é da marca Daco". Combinamos que a chave permanece no meu chaveiro do gato azul, e a gente pode brincar de abrir nossos segredos, mesmo com essa distância física que vai se colocar entre nós.
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