domingo, janeiro 25

:: Dos truques

Ninguém (nin-guém!) acredita quando deixo alguma coisa no prato. Nem os amigos, nem a família, nem os garçons. Principalmente os garçons. Imagino que eles devam observar o meu incrível porte físico e pensar, automaticamente, que eu não acabei de comer porque não gostei. Certamente eles pensam isso.

Quando fui fazer o Guia Nordeste (Unicard) passei dois meses viajando sozinha, de mala, computador, livros e afins, na maior correria, comendo em todos os restaurantes, sorveterias, docerias e similares das capitais. E no Nordeste, todo mundo sabe como as porções para uma pessoa são discretas - servem só umas três ou quatro meninas. Rá

Então, a missão, depois de quilos e quilos a menos na volta da viagem-mochilão-pelo-Chile, era comer o mínimo (mesmo), já que precisava almoçar três vezes e jantar duas, além dos lanches nos intervalos (god). Básico, tranquilo. E eu fazia isso - tudo comprovado pela balança, com apenas um quilo e meio a mais depois da maratona - contra os nove que o repórter de Minas incorporou em menos tempo.

E então, todo santo dia era a mesma coisa: o garçom via meus talheres cruzados e perguntava se eu não tinha gostado. E eu não aguentava mais repetir a mesma piadinha, porque não podia me identificar até a hora de receber a nota fiscal. Eu perdi a conta de quantas vezes repeti assim: não parece, mas eu como pouco - e dava uma risadinha rá rá - e eles riam também, quase sempre.

Enfim, o tempo passou e, desde o começo do ano, já vivi algumas situações parecidas, aqui em São Paulo. Outro dia fui ao novo Kaa, experimentar o que Pascal Valero anda aprontando ali (pós-Le Coq Hardy), naquela cozinha envidraçada. Num ritual onde se come ao lado de um jardim vertical de orquideas que, confesso, é um pouco impressionante (e "um pouco" é só modo de dizer).

Pedi um ravióli feito na casa recheado com camarões, servido com lentilhas de Puy (aquelas francesas pequetuchas e mais firmes) e molho de ervas, bem delicado. Pois eu comi o suficiente para ficar satisfeita e sentir todos os sabores misturados ali. Não foi muito porque antes comi uma salada com burrata (!) e tomatinhos, que estava um arraso. E, como de costume, cruzei os talheres.

O garçom se aproximou meio espantado de me ver deixando quase metade daquele prato de Pascal Valero e fez a pergunta clássica:

- Não gostou?
- Adorei, mas "deixar um pouco no prato" é a meta de 2009!

E funcionou tão bem, com risada e tudo, que vou adotar daqui pra frente.

3 comentários:

fabio disse...

you are marvellous.
gorgeous.

depois quero saber desse tour pelo nordeste (!) e mochilão no chile (!!!).
to meio vendo agora que não sei da missa um oitavo! because i need, né!
rá!
bjs.

Patrí disse...

Ai Lu, eu tbm me sinto assim... com meu incrível físico hahaha quando deixo algo no prato ninguém acredita, ou acha que não gostei... hahaha!! Fazer o que né? Ainda bem que não tenho que sair por aí almoçando e jantando duas vezes... ia pirar!!!
Mas sempre que leio suas apetitosas dicas, fico logo imaginando que teve o imenso trabalho de prova-las... uiii que meda! Beijo!

Marina Fuentes disse...

Nem me fala! Também deixo, e além da dificuldade de resistir e a dificuldade, digamos, de criação (fui educada para comer tudo o que vem no prato), sempre tem esse lado de deixar o garçon meio injuriado...